26.12.07

Roteiro

“PENCA DE GENTE”

Cassio Sader

1. EXT. PRAIA - DIA

Três pessoas distantes e desfocadas, em primeiro plano milhares de bolhas de sabão. Quando uma das bolas se aproxima da lente e explode corta para cena seguinte.

2. INT. VELÓRIO - DIA

Câmera subjetiva abre caminho em um velório em direção ao caixão, ate percebermos que está vazio.

3. EXT. CEMITÉRIO – DIA

Cemitério gramado, câmera subjetiva percorre um caminho entre lápides sem nomes. Surge uma bola em primeiro plano que faz a passagem para a próxima cena.

4. EXT. ESTÁDIO DE FUTEBOL – DIA

Estádio de futebol vazio, câmera subjetiva de jogador avança em direção ao gol. Ouve-se apito.

5. LETREIROS

Som de torcida. Tela preta, imagem da maquete de platéia (a mesma do cartaz) letreiros: Livre Filmes apresenta Penca de gente – Coletivo inconsciente. Ouvem-se vozes:

RICARDO

(Voz de narrador coloquial)

(Voz de locutor)

(Coro)


6. INT APARTAMENTO DE RICARDO - DIA

Ricardo acorda e faz sua rotina matinal apressado. Câmera subjetiva, principalmente. Detalhes, que não revelam personagem. Água do chuveiro cai “a la Hitchcock”, Escova de dente cai no copo. Roupas saindo do armário, que fica quase vazio. Bate a porta. Outra porta bate.

7. INT PRÉDIO - DIA

Fala com o porteiro:

RICARDO

(on)


8. INT. ÔNIBUS - DIA

Vemos o rosto de Ricardo. Entram mais pessoas. Uma senhora, uma jovem. O mesmo Ricardo, entra novamente no ônibus, e os Ricardos se cumprimentam. E outro e mais outro Ricardo entram e se espalham nos bancos e entre as pessoas. Um vestido de cada jeito, outro nu. Um lê jornal. Cortes e pequenos movimentos de câmera acompanhando o olhar do personagem criam a ilusão de estarem vários Ricardos no ônibus:

RICARDO

(on)

RICARDO

(off)

RICARDO

(on)

Ricardo acaba de falar e olha para trás. Vemos “outro” Ricardo, desta vez olhando pela janela em close e big close:

RICARDO

(off)

Câmera corrige em direção ao interior do ônibus e corta para outra pequena correção de câmera enquadrando “outro” Ricardo, sentado, com olhar perdido:

RICARDO

(off)

“Outro” Ricardo, desta vez em pé, como se assistisse às falas e pensamentos dos “outros”:

RICARDO

(off)

Ricardo, balança a cabeça que está começando a “esquentar” por conta das “suas” falas e pensamentos:

RICARDO

(on)

Descem do ônibus os vários Ricardos. Pela janela, um deles acena. Uns outros olham. Entram no plano inclinado. Andam pelas ruas. Uns na frente, outros atrás, mais alguns dos lados:

RICARDO

(on, falando pra câmera)

RICARDO

(off, narrador coloquial)

Pára, enxuga o suor do rosto com um lenço:

RICARDO

Neste momento, olha para uma barbearia, onde, em um plano sem cortes, pessoas entram com cabelo dos mais diversos tipos e saem carecas. É a “Barbearia do Consenso”.

Depois de testemunhar a cena da barbearia, retoma sua caminhada. As falas quase se sobrepõe umas às outras, acompanhadas de cortes fazendo um rodízio entre Ricardo e os seus “outros”:

RICARDO

(off)

Tentando “por ordem” na sucessão de falas, Ricardo explica, no meio da rua, aos “outros”:

RICARDO

(on)


10. EXT. LIVRARIA - DIA

Os Ricardos chegam ao trabalho, uma livraria. Atendem clientes, lêem livros, jornais, listas de mais vendidos em revistas, acessam internet, atendem telefone. Lê em voz alta, alternando “on” e “off”. O primeiro trecho Ricardo fala olhando para a câmera, no último, vemos a página onde está o trecho lido:

RICARDO

(on)

RICARDO

(off)

Toca o telefone. Fecha o livro: Foucault, L’usage de plaisir. Ouve-se voz feminina do outro lado da linha. É Maria.

RICARDO


11. EXT. CAFÉ - DIA

Ricardo e seus duplos no café, em várias mesas. Maria atravessa a rua. Cumprimentam-se. Neste diálogo, alguns trechos se repetem sob diferentes ângulos, mas sem ser entendido claramente, superado pelo barulho ambiente, tanto na fala de Ricardo quanto na de Maria, que se olham mas não se escutam, silêncios também se fazem sentir, caracterizando uma certa falta de compreensão:

MARIA

RICARDO

MARIA

RICARDO

MARIA

Duplo de Ricardo cutuca no ombro e fala, e assim vários vão falando entre si… Majoritariamente, a câmera focaliza Maria, cada frase sendo acompanhada por um enquadramento diferente:

RICARDO

MONTAGEM PARALELA COM A CENA SEGUINTE


12. EXT. LIVRARIA - DIA

Na livraria novamente, Ricardo lê agora Platão, Fédon, Ed. Cultrix, p.139. em voz alta, alternando “on” e “off”. A entonação do começo da fala embute um exagero de quem chama a atenção das vozes da cena anterior:

RICARDO

(on)

MONTAGEM PARALELA COM A CENA SEGUINTE


13. INT. CASA DE RICARDO - NOITE

Em casa, pelo telefone, Ricardo conversa com Maria, deitado no sofá, vendo TV, na cozinha, um duplo serve o outro. Cada um fala a sua parte e passa o aparelho para o outro (fazer opção sem passagem do aparelho, só cortes):

RICARDO

MONTAGEM PARALELA COM A CENA SEGUINTE


14. INT. CASA DE MARIA - NOITE

Maria, na poltrona da sua casa.

MARIA

Sutilmente, percebemos que é outra Maria que fala e bate o telefone, através da mudança de tom da fala no corte:

MARIA


15. INT. CASA DE RICARDO - NOITE

Ricardo dormindo no sofá, sonha.

16. EXT. PIER - DIA

No píer, a câmera de baixo, detalhe e som, Ricardo em planos gerais, sem foco, invisíveis, ouvem-se passos, ranger da madeira. Falas se repetem, se misturam, adicionam improviso e invadem cenas 17 e 18.

RICARDO

17. EXT. PLANO INCLINADO – DIA

No plano inclinado, Ricardo subindo e descendo, saindo, entrando…

18. INT. ELEVADOR LACERDA – DIA

No elevador Lacerda, Ricardo subindo e descendo, saindo, entrando…

19. EXT. RUA - DIA

Em frente à banca de camelô, reflexos de Ricardo em vários pequenos espelhos com moldura cor de laranja.

RICARDO


20. INT. CONSULTÓRIO DO TERAPEUTA - DIA

Consultório de psicólogo, lá estão eles, os Ricardos. Uns calam, uns brincam, outros falam, outros se encaram sem piscar (Ops! é só o espelho…), se juntam e se vê ao fundo o paciente e o terapeuta:

TERAPEUTA

Ricardo! Eu já te disse! Não dá pra ser maluco e normal!

RICARDO

Mas porquê?

TERAPEUTA

Por que eles não aguentam!

Terapeuta e Ricardo ficam ao fundo, enquanto os outros tentam chegar a um acordo sobre a situação:

RICARDO


21. INT. SALA DE ESPERA DO CONSULTÓRIO - DIA

Na sala de espera, ao sair, Ricardo encontra Maria esperando sua hora. Um certo constrangimento ao se cruzarem. Quando Ricardo sai, aparecem duplas de Maria, do banheiro, da porta, de trás do sofá, lendo revistas, lixando as unhas, etc.…

FIM

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