“PENCA DE GENTE”
Cassio Sader
1. EXT. PRAIA - DIA
Três pessoas distantes e desfocadas, em primeiro plano milhares de bolhas de sabão. Quando uma das bolas se aproxima da lente e explode corta para cena seguinte.
2. INT. VELÓRIO - DIA
Câmera subjetiva abre caminho em um velório em direção ao caixão, ate percebermos que está vazio.
3. EXT. CEMITÉRIO – DIA
Cemitério gramado, câmera subjetiva percorre um caminho entre lápides sem nomes. Surge uma bola em primeiro plano que faz a passagem para a próxima cena.
4. EXT. ESTÁDIO DE FUTEBOL – DIA
Estádio de futebol vazio, câmera subjetiva de jogador avança em direção ao gol. Ouve-se apito.
5. LETREIROS
Som de torcida. Tela preta, imagem da maquete de platéia (a mesma do cartaz) letreiros: Livre Filmes apresenta Penca de gente – Coletivo inconsciente. Ouvem-se vozes:
RICARDO
(Voz de narrador coloquial)
Andando pelas ruas se vê
o quanto, ou o que… de que forma…
Um personagem anda nas ruas…
Sou eu.
(Coro)
Agora!
Caralho! O horário…
6. INT APARTAMENTO DE RICARDO - DIA
Ricardo acorda e faz sua rotina matinal apressado. Câmera subjetiva, principalmente. Detalhes, que não revelam personagem. Água do chuveiro cai “a la Hitchcock”, Escova de dente cai no copo. Roupas saindo do armário, que fica quase vazio. Bate a porta. Outra porta bate.
7. INT PRÉDIO - DIA
Fala com o porteiro:
RICARDO
(on)
Oi... tchau.
8. INT. ÔNIBUS - DIA
Vemos o rosto de Ricardo. Entram mais pessoas. Uma senhora, uma jovem. O mesmo Ricardo, entra novamente no ônibus, e os Ricardos se cumprimentam. E outro e mais outro Ricardo entram e se espalham nos bancos e entre as pessoas. Um vestido de cada jeito, outro nu. Um lê jornal. Cortes e pequenos movimentos de câmera acompanhando o olhar do personagem criam a ilusão de estarem vários Ricardos no ônibus:
RICARDO
(on)
Oi, tudo bem?
RICARDO
(off)
Jornal, nada de novo.
TV, nada.
RICARDO
(on)
Era pra ser mais um dia,
apesar de ser o primeiro do ano.
Sol, relógio, ônibus, calor,
expectativas, tudo igual.
Ricardo acaba de falar e olha para trás. Vemos “outro” Ricardo, desta vez olhando pela janela em close e big close:
RICARDO
(off)
Ao diabo com essas manias
de que as coisas seriam diferentes.
De que alguma coisa vá mudar por si.
Câmera corrige em direção ao interior do ônibus e corta para outra pequena correção de câmera enquadrando “outro” Ricardo, sentado, com olhar perdido:
RICARDO
(off)
Exceto a idade.
“Outro” Ricardo, desta vez em pé, como se assistisse às falas e pensamentos dos “outros”:
RICARDO
(off)
Xí.
Ricardo, balança a cabeça que está começando a “esquentar” por conta das “suas” falas e pensamentos:
RICARDO
(on)
Ai.
9. EXT. PRAÇA DA SÉ - DIA
Descem do ônibus os vários Ricardos. Pela janela, um deles acena. Uns outros olham. Entram no plano inclinado. Andam pelas ruas. Uns na frente, outros atrás, mais alguns dos lados:
RICARDO
(on, falando pra câmera)
Esse aí hoje não quer nada com nada.
RICARDO
(off, narrador coloquial)
Desse dia em diante…bem, adiante.
Acabou mais um ano,
com 6 kilos e 2 ex-mulheres a mais.
Nenhum filho, nem livro...
Pára, enxuga o suor do rosto com um lenço:
RICARDO
Para dias cinzas, roupas de cores quentes;
para o corpo, farmácias;
para o espírito, os shoppings…;
Para certezas, senso comum;
para não haver dúvidas, consensos;
para facilitar, fábricas.
Neste momento, olha para uma barbearia, onde, em um plano sem cortes, pessoas entram com cabelo dos mais diversos tipos e saem carecas. É a “Barbearia do Consenso”.
Depois de testemunhar a cena da barbearia, retoma sua caminhada. As falas quase se sobrepõe umas às outras, acompanhadas de cortes fazendo um rodízio entre Ricardo e os seus “outros”:
RICARDO
(off)
E você acha que vai a algum lugar
imitando locutor?
E as idéias, não contam?
A idéia e as estruturas não vão às ruas.
Nem eu gosto…
Nem eu…
Mas eu iria…
Reforma ou revolução…
Abalou!
Socialismo ou barbárie.
Em barbárie já se vive.
Então, entrar em qual esquema
e em nome de quê?
Tentando “por ordem” na sucessão de falas, Ricardo explica, no meio da rua, aos “outros”:
RICARDO
(on)
Toda ação provoca uma reação.
Se nós fizermos a revolução,
eles reagem.
Se eles nos dão um golpe,
nós reagimos.
Mas só eles são de direita,
conservadores, nós não,
nós somos de esquerda, entendeu?
10. EXT. LIVRARIA - DIA
Os Ricardos chegam ao trabalho, uma livraria. Atendem clientes, lêem livros, jornais, listas de mais vendidos em revistas, acessam internet, atendem telefone. Lê em voz alta, alternando “on” e “off”. O primeiro trecho Ricardo fala olhando para a câmera, no último, vemos a página onde está o trecho lido:
RICARDO
(on)
"Quanto ao motivo que me impeliu,
era muito simples.
Espero que para alguns
ele baste por si mesmo.
É a curiosidade, em todo caso,
que vale praticar com um pouco
de obstinação.
Não aquela que procura assimilar
o que convém conhecer,
mas aquela que permite
se desligar de si mesmo."
RICARDO
(off)
"De que valeria o empenho do saber
se assegurasse apenas
a aquisição de conhecimentos,
e não, de certo modo e na medida do possível,
o descaminho daquele que conhece?"
"Há momentos na vida
em que a questão de saber
se podemos pensar diferentemente
do que pensamos e perceber
diferentemente do que percebemos
é indispensável para continuar a olhar e refletir…"
"O que é, pois, a filosofia
– quero dizer a atividade filosófica –
se não é o trabalho crítico
do pensamento sobre si mesmo.
E se ele não consiste,
ao invés de legitimar o que já sabemos,
em tentar saber como
e até que ponto seria possível
pensar diferentemente."
Toca o telefone. Fecha o livro: Foucault, L’usage de plaisir. Ouve-se voz feminina do outro lado da linha. É Maria.
RICARDO
Então tá marcado…
Um beijo.
11. EXT. CAFÉ - DIA
Ricardo e seus duplos no café, em várias mesas. Maria atravessa a rua. Cumprimentam-se. Neste diálogo, alguns trechos se repetem sob diferentes ângulos, mas sem ser entendido claramente, superado pelo barulho ambiente, tanto na fala de Ricardo quanto na de Maria, que se olham mas não se escutam, silêncios também se fazem sentir, caracterizando uma certa falta de compreensão:
MARIA
Eu quase não te reconheci.
Você tá diferente!
RICARDO
Eu também tô me achando estranho…
sabe aqueles dias que pensamos,
pensamos e não chegamos
a nenhuma conclusão,
mil e uma possibilidades,
várias vozes…?
MARIA
Tá ouvindo vozes? Tá maluco?
Você tá lendo demais!
RICARDO
Não, eu tô falando do pensamento!
MARIA
Ufa.... Claro que sim, aliás,
temos que ouvir nossa voz interior.
Eu tô lendo um livro ótimo,
em primeiro lugar na lista
há 17 semanas, você não leu?
Chama…
Duplo de Ricardo cutuca no ombro e fala, e assim vários vão falando entre si… Majoritariamente, a câmera focaliza Maria, cada frase sendo acompanhada por um enquadramento diferente:
RICARDO
E aí, qual é?
Muito interessante essa moça...
Me lembra alguém...
Esse cara só pensa na infância!
Um sonho talvez...
Hummm... sei não...não tem muito a ver...
A mulher da sua vida...
MONTAGEM PARALELA COM A CENA SEGUINTE
12. EXT. LIVRARIA - DIA
Na livraria novamente, Ricardo lê agora Platão, Fédon, Ed. Cultrix, p.139. em voz alta, alternando “on” e “off”. A entonação do começo da fala embute um exagero de quem chama a atenção das vozes da cena anterior:
RICARDO
(on)
"Que coisa esquisita parece senhores,
isso a que os homens chamam prazer!
Notável sua relação com seu contrário, a dor.
Negam-se a estar presentes ambos juntos no homem,
mas quem busca e pega um deles
é como forçado, infalivelmente,
a pegar também o outro,
como se, sendo embora dois,
estivessem ligados por uma cabeça única."
MONTAGEM PARALELA COM A CENA SEGUINTE
13. INT. CASA DE RICARDO - NOITE
Em casa, pelo telefone, Ricardo conversa com Maria, deitado no sofá, vendo TV, na cozinha, um duplo serve o outro. Cada um fala a sua parte e passa o aparelho para o outro (fazer opção sem passagem do aparelho, só cortes):
RICARDO
Eu acho que você não deve
ter entendido nada do nosso encontro…
Eu mesmo não sei…
São várias coisas
ao mesmo tempo.
E se tem uma coisa para a qual
a sociedade não nos prepara
é para decidir.
MONTAGEM PARALELA COM A CENA SEGUINTE
14. INT. CASA DE MARIA - NOITE
Maria, na poltrona da sua casa.
MARIA
Que nada, eu entendo…
depois de tudo que você me disse
eu fiquei pensando…
Sutilmente, percebemos que é outra Maria que fala e bate o telefone, através da mudança de tom da fala no corte:
MARIA
Tá achando que só você é profundo?
Que prepotência!
15. INT. CASA DE RICARDO - NOITE
Ricardo dormindo no sofá, sonha.
16. EXT. PIER - DIA
No píer, a câmera de baixo, detalhe e som, Ricardo em planos gerais, sem foco, invisíveis, ouvem-se passos, ranger da madeira. Falas se repetem, se misturam, adicionam improviso e invadem cenas 17 e 18.
RICARDO
Simplório…
Maniqueísta!
Pós-lacaniano…
Adolescente.
17. EXT. PLANO INCLINADO – DIA
No plano inclinado, Ricardo subindo e descendo, saindo, entrando…
18. INT. ELEVADOR LACERDA – DIA
No elevador Lacerda, Ricardo subindo e descendo, saindo, entrando…
19. EXT. RUA - DIA
Em frente à banca de camelô, reflexos de Ricardo em vários pequenos espelhos com moldura cor de laranja.
RICARDO
Inferno!
20. INT. CONSULTÓRIO DO TERAPEUTA - DIA
Consultório de psicólogo, lá estão eles, os Ricardos. Uns calam, uns brincam, outros falam, outros se encaram sem piscar (Ops! é só o espelho…), se juntam e se vê ao fundo o paciente e o terapeuta:
TERAPEUTA
Ricardo! Eu já te disse! Não dá pra ser maluco e normal!
RICARDO
Mas porquê?
TERAPEUTA
Por que eles não aguentam!
Terapeuta e Ricardo ficam ao fundo, enquanto os outros tentam chegar a um acordo sobre a situação:
RICARDO
E aí, como é que fica?
O quê, rapaz, tá enlouquecendo?
Não para de sonhar
sonhos repetidos…
Por que eu sou tão diferente?
Ou eles é que são?
Pensando bem, eles são maioria…
Se bem que…
Esse moço tem problemas…
(o terapeuta?)
Já reparou que é preciso
uns 3 ou 4 enfermeiros fortes
para segurar um louco?
Ai.
Carái véi.
21. INT. SALA DE ESPERA DO CONSULTÓRIO - DIA
Na sala de espera, ao sair, Ricardo encontra Maria esperando sua hora. Um certo constrangimento ao se cruzarem. Quando Ricardo sai, aparecem duplas de Maria, do banheiro, da porta, de trás do sofá, lendo revistas, lixando as unhas, etc.…
FIM
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